Os abismos do coração

Há uma necessidade de rebuscarmos o nosso próprio coração a fim de compreendermos as idolatrias que passam despercebidas dentro de suas profundidades. Podemos compreender este processo através da história relatada no livro de Jonas.

O primeiro abismo profundo que podemos encontrar no coração de Jonas é a revelação de Deus sem uma conversão sincera a ela. A revelação que ele tinha de Deus era extraordinária:

“E orou ao Senhor, e disse: Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.”

Jonas 4: 2

Ela se baseava na Palavra que Deus havia dado a Moisés em Êxodo 34:6-7, onde Moisés havia se convertido verdadeiramente. Jonas, no entanto, tinha conhecimento desta revelação de Deus, mas preferia não crer que Deus poderia perdoar um povo como os ninivitas. Ora, tal revelação se tornou algo insustentável para Jonas, pois não há como carrega-la sem converter-se a ela e não havia nele disposição para isso.

O segundo abismo do coração de Jonas eram os ídolos secretos. Quando ele estava no ventre do peixe o Senhor lhe deu uma chave, dizendo:

“Os que se entregam à idolatria vã abandonam aquele que lhes é misericordioso.”

Jonas 2:8

Jonas guardava ídolos em seu coração como prisioneiro de suas ideologias, podendo estar certo de que pregar ao povo assírio, inimigos políticos de Israel, seria uma ameaça a sua própria nação, permitindo, então, que isso fosse maior que seu chamado profético.

A verdade é que quem cai na idolatria despreza a misericórdia, pois absorve a essência do seu ídolo. Foi necessário que Jonas fosse levado às profundezas dos mares para que esse abismo em seu coração fosse sondado. O Salmo 115:4-8 se cumpriu literalmente na vida de Jonas. Jonas tinha olhos que não viam e ouvidos que não ouviam: com sua boca ele não clamou a Deus na tempestade e tendo olhos não viu o clamor dos marinheiros e dos ninivitas. A idolatria cega a visão profética de modo que o idólatra vê e não se comove com o próximo e tendo ouvidos tampouco ouve o seu clamor.

O terceiro abismo é o vazio existencial que Jonas vivia e, portanto, pediu a morte para si por quatro vezes (porque é terrível a vida sem Deus). É possível que, mesmo crentes, nossa vida se torne insuportável porque não mergulhamos na essência do amor de Deus. Existem alguns motivos para esse vazio existencial em Jonas, como o vazio de Deus (provocado pelo distanciamento do Senhor), o esgotamento emocional e o profundo sono espiritual (manifestado em várias áreas de sua vida).

O quarto abismo é a infelicidade de uma obediência sem amor. É preciso entender o que o apóstolo Paulo fala em 1 Coríntios 13 acerca de como o amor deve ser a essência de tudo o que fazemos. O avivamento dos dias de Jonas foi profundo para o Senhor, mas trouxe pouco benefício espiritual para Jonas porque ele obedeceu destituído de amor e tudo o que fazemos desse modo não faz sentido para o nosso crescimento.

  • Você é feliz fazendo aquilo que Deus mandou você fazer?
  • Essa felicidade está baseada nos resultados ou na essência do que Deus mandou você fazer?

No início do capítulo 4 Jonas sentou-se e observou a cidade indignado esperando que Deus mudasse de ideia a respeito de Nínive e removesse a sua misericórdia. A resposta de Deus foi um questionamento sobre a razão de sua ira.

Quando não conseguimos mais ouvir as vozes espirituais, não podemos deixar se perder a razão e o bom senso, porquanto Deus ainda pode nos falar por meio das coisas lógicas. Isto nos leva ao quinto e último abismo existencial da vida de Jonas: o distanciamento da razão e do bom senso, porque Jonas pretendia que a cidade fosse destruída quando o questionamento de Deus evidenciou que a indignação de Jonas não fazia sentido.

A crise de Jonas pode ser observada como contemporânea, enfrentada por muitos de nós sob nossas perspectivas atuais.

Texto adaptado da palavra ministrada pelo Ap. Wilson Maia
durante e Conferência Profética no dia 22/02/2020.